NOVEMBRO É NEGRO. MAS TODO MÊS TAMBÉM É

Um mês para lembrar. Uma vida inteira para resistir, existir, ocupar e transformar.

Chegou novembro.
E, de repente, aparecem os discursos, as campanhas, as palestras, as homenagens, as roupas estampadas, as palavras bonitas sobre ancestralidade, as empresas que descobrem que pessoas negras existem, as vitrines que ficam pretas, as redes sociais que se enchem de frases sobre resistência.

Bem-vindos ao Novembro Negro.

Mas vamos falar a verdade?

Nós somos negros em novembro e nos outros onze meses também.

Nossa pele não muda quando dezembro chega.

Nossa história não desaparece no dia 1º de dezembro.

O racismo não tira férias.

A desigualdade não entra em recesso.

E a nossa ancestralidade não precisa esperar o calendário marcar novembro para existir.

POR QUE NOVEMBRO?

O 20 de novembro carrega uma história de resistência.
A data remete à morte de Zumbi dos Palmares, em 1695, símbolo da resistência negra contra a escravização e liderança associada ao Quilombo dos Palmares.
Mas a escolha dessa data como símbolo da consciência negra não nasceu de uma homenagem oferecida de cima para baixo.

Ela foi construída pela luta.

Na década de 1970, em plena ditadura militar, militantes e intelectuais negros passaram a defender o 20 de novembro como uma data de memória e resistência. A escolha também representava uma crítica à centralidade do 13 de maio, data da assinatura da Lei Áurea, que durante muito tempo foi apresentada como se a liberdade dos negros tivesse sido simplesmente um presente concedido pela princesa Isabel.

Mas nós sabemos que não foi assim.

Antes da assinatura de qualquer papel, houve fuga, houve quilombo, houve revolta, houve organização, houve cultura, houve fé, houve resistência, houve gente negra dizendo:

“Eu não nasci para ser propriedade de ninguém.”
E é por isso que novembro importa.

Não porque precisamos de um mês para sermos negros.
Mas porque precisamos de memória para não esquecer por que ainda precisamos lutar.

MAS EU TENHO UMA PERGUNTA:

E DEZEMBRO?

Quando novembro acabar, o que acontece?
A empresa devolve o funcionário negro para o canto?
A escola guarda os livros sobre África?
A televisão volta a diminuir nossa presença?
O comércio deixa de contratar profissionais negros para suas campanhas?
As universidades deixam de discutir racismo?
As instituições esquecem a diversidade?
As pessoas deixam de falar sobre intolerância religiosa?

Não.

Porque a vida continua.
E a população negra continua vivendo tudo isso em dezembro, Janeiro, Fevereiro, Março, Abril, Maio, Junho, Julho, Agosto, Setembro, Outubro

E novembro novamente.

Porque todo mês é negro.


NOVEMBRO NÃO É FANTASIA. É REALIDADE.

Ser negro no Brasil não é uma fantasia cultural.
Não é fantasia de carnaval.
Não é tendência de moda.
Não é pauta de marketing.
Não é uma estampa bonita.


É identidade.
É história.
É pertencimento.
É luta.
É também alegria.
É família.
É amor.
É empreendedorismo.
É ciência.
É política.
É arte.
É tecnologia.
É educação.
É dinheiro.
É poder.
É liderança.
É futuro.

Nós não somos apenas descendentes de pessoas escravizadas.
Somos descendentes de pessoas que sobreviveram à escravização.
E existe uma diferença gigantesca entre essas duas formas de contar nossa história.


Uma começa no sofrimento.
A outra começa na resistência.

NÃO QUEREMOS SER LEMBRADOS APENAS PELA DOR

Precisamos falar sobre racismo.
Precisamos falar sobre desigualdade.
Precisamos falar sobre violência.
Precisamos falar sobre intolerância religiosa.
Precisamos falar sobre apagamento.
Precisamos falar sobre tudo aquilo que ainda machuca.

Mas também precisamos falar sobre nós quando estamos vencendo.
Quando estamos empreendendo.
Quando estamos estudando.
Quando estamos criando.
Quando estamos ocupando espaços.
Quando estamos enriquecendo.
Quando estamos amando.
Quando estamos criando nossos filhos.
Quando estamos produzindo cultura.
Quando estamos comandando empresas.
Quando estamos sentados à mesa onde durante muito tempo disseram que não deveríamos estar.

Nossa existência não pode ser resumida aquilo que fizeram contra nós.
Nós também precisamos contar aquilo que fizemos.

A ANCESTRALIDADE NÃO É FANTASMA. É CAMINHO.

Olhar para nossos ancestrais não significa viver preso ao passado.
Significa reconhecer que estamos aqui porque alguém antes de nós resistiu.
Alguém plantou para que pudéssemos colher.
Alguém ensinou uma criança a manter uma língua.
Alguém escondeu um tambor.
Alguém preservou uma receita.
Alguém manteve uma fé.
Alguém contou uma história.
Alguém abriu a porta de uma casa.
Alguém acolheu um fugitivo.
Alguém criou um quilombo.
Alguém ensinou que liberdade não se pede de joelhos.

Liberdade se constrói.

E talvez essa seja uma das maiores responsabilidades do nosso tempo:
não desperdiçar a liberdade que nossos ancestrais lutaram para conquistar.

NOVEMBRO É MARCO. NÃO É LIMITE.

Que novembro seja celebrado.
Que Zumbi seja lembrado.
Que Palmares seja estudado.
Que nossa história esteja nas escolas.
Que nossas crianças conheçam seus heróis.
Que nossa cultura seja respeitada.
Que nossa estética seja valorizada.
Que nossos profissionais sejam contratados.
Que nossos empreendedores sejam vistos.
Que nossas vozes sejam ouvidas.
Que nossa presença seja reconhecida.

Mas quando novembro terminar, não nos procurem apenas para falar de racismo.

Procurem-nos para contratar.
Para comprar.
Para investir.
Para fazer parceria.
Para dividir conhecimento.
Para abrir portas.
Para construir junto.


Porque consciência negra não é uma campanha de 30 dias.

É uma construção diária.

TODO MÊS É NOVEMBRO

Janeiro é negro.
Fevereiro é negro.
Março é negro.
Abril é negro.
Maio é negro.
Junho é negro.
Julho é negro.
Agosto é negro.
Setembro é negro.
Outubro é negro.
Novembro é negro.
Dezembro também.

Porque enquanto existir uma pessoa negra respirando, criando, amando, lutando, trabalhando, sonhando e construindo sua história…

A história negra estará acontecendo.

Então, sim:

Viva Novembro Negro.

Mas não nos ofereçam apenas novembro.

Queremos todos os meses.
Queremos todos os espaços.
Queremos toda a nossa história.
Queremos nossa memória.
Queremos nossa dignidade.
Queremos nossa liberdade.
Queremos nosso futuro.

E, principalmente:

QUEREMOS QUE O MUNDO ENTENDA QUE SER NEGRO NÃO É UMA PAUTA DE NOVEMBRO.

É UMA EXISTÊNCIA.

SOU ÁFRICA BR MAGAZINE
Porque o mundo é afro-brasileiro.

3 respostas

  1. Avatar de Lindo texto! A luta continua e diária
    Lindo texto! A luta continua e diária

    Lindo texto e mais do que oportuno! A luta continua e é diária!

    1. Avatar de souafricabr

      Sim, infelizmente diariamente temos que lutar para provar que nosso dia é todos os dias o ano toto

  2. Avatar de Lindo texto! A luta continua e diária
    Lindo texto! A luta continua e diária

    Lindo texto e mais do que oportuno! A luta continua e é diária!

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Ama Ndlovu explores the connections of culture, ecology, and imagination.

Her work combines ancestral knowledge with visions of the planetary future, examining how Black perspectives can transform how we see our world and what lies ahead.